Educar no desassossego para a paz

O século passado deixou-nos, quase como urgência civilizacional, vários desafios, consubstanciados na Declaração do Milénio: alcançar a paz e a justiça social, erradicar a pobreza, garantir os direitos humanos a todas as pessoas. Ingenuamente sonhámos chegar lá, até 2015…

Perante tais objetivos, a educação não pode permanecer indiferente, pois a sua realização afeta as nossas opções de vida e compromete o nosso futuro. Quando falamos de educação, falamos não apenas dos sistemas educativos formais, como as escolas e as famílias, mas também, e cada vez mais, da educação não formal, através dos meios de comunicação social, das artes, das igrejas, das empresas, dos partidos, das associações, movimentos cívicos, sindicatos…
Os meios de comunicação social apresentam, como modelo, heróis que combatem a violência com a violência, instilando nas crianças e nos adolescentes uma falsa conceção de paz, a Pax Romana, ou seja, a paz conquista-se pela força e pelo poder das armas e se, para tal, calcarmos os direitos humanos, trata-se de danos colaterais.
Também a escola privilegia o estudo dos heróis que alcançaram a paz pela violência, em detrimento dos heróis que fizeram história através da não violência, como Luther King, Gandhi, Nélson Mandela, Teresa de Calcutá, Francisco de Assis.
Na própria escola, existe uma estrutura educacional violenta e excludente, baseada no sucesso e na competitividade, muito mais perniciosa que os fenómenos amplificados da violência escolar.

Mas como podemos educar-nos numa cultura da paz se confundimos agressividade com violência, conflito com guerra, sucesso com domínio?

Entender a paz

Tradicionalmente entendemos a paz como ausência de conflitos ou de guerra, ou, num plano pessoal, como ausência de tensões, apresentando-se, assim, a paz de uma forma idílica, irreal.
Na verdade, a paz não é antitética da guerra, mas sim da violência (a guerra é apenas uma forma organizada de violência). Qualquer violência é um atentado à paz: a violência clássica (física e psicológica), mas também a violência estrutural (a injustiça social) e a violência cultural (revestindo formas de colonialismo ou alienação cultural).
A construção da paz está, por conseguinte, interligada com a criação de estruturas sociais democráticas e respeitadoras, onde todos possam desfrutar de cada um dos direitos inerentes à pessoa humana e onde a cultura seja uma possibilidade de fruição e criação prazerosas e não alienantes.
Falar de educação na e para a paz implica, por isso, três vetores inseparáveis: desenvolvimento e justiça social; democracia; direitos humanos.

Entender o conflito

De igual modo, circula, também, um visão deturpada sobre o conflito, visto como algo de negativo ou patológico, sinónimo de violência, algo que se deve corrigir ou evitar. Esta visão acarreta o perigo grave de associar o conflito com manifestações ou respostas associadas ao conflito, confundindo-se, erroneamente, a violência (uma resposta possível face ao conflito) com o conflito.
O conflito nasce duma tensão ou desequilíbrio, é um processo natural e inevitável, fator de crescimento das pessoas e dos grupos. O que faz a diferença não é o conflito, mas a forma como lidamos com ele e, normalmente, fingir que o mesmo não existe é a pior estratégia. Importa, pois, desde a mais tenra idade, na família e na escola, aprender a gerir os conflitos, de forma criativa, aproveitando todo o seu potencial de crescimento e renovação.

Questionar a violência como forma de resolução de conflitos

Nas últimas décadas, a violência, em todas as suas formas e manifestações, adquiriu um quase estatuto de normalidade, como algo natural ou inevitável. Mais, assistimos à ritualização da violência, tanto na vida real, como através da televisão e do cinema, caracterizando-a como a única ou, pelo menos, a melhor forma de resolver os conflitos. Esta presença quotidiana da violência na nossa vida, desde a infância, aliada ao lamentável legado histórico, induz-nos a pensar que a violência é algo natural e inerente à espécie humana, levando-nos a confundir a conflitualidade da existência, com uma das formas possíveis de resposta face ao conflito.
Não se trata, portanto, de negar os conflitos, mas de compreender que existem alternativas às dinâmicas da violência e destruição, por um lado, ou da submissão, por outro. Como diria Gandhi: “perante os conflitos devemos ser duros com os problemas, mas compassivos com as pessoas”. Esta reaprendizagem da nossa relação com o conflito representa um desafio educativo e cultural tremendo.
Precisamos reaprender a distinguir entre comportamentos violentos e combatividade. A combatividade ou agressividade faz parte do ser humano e, em si mesma, é positiva e necessária para a nossa sobrevivência e auto afirmação física e psíquica, como indivíduos e como grupo. Mas, da inevitabilidade da agressividade não deriva a inevitabilidade da violência.

Superar o conceito de domínio e o culto da competitividade

A nossa história e cultura assentam no conceito de domínio pelas mais variadas razões: classe social, etnia, género, nação. Precisamos reaprender a amargura da vitória que assenta na derrota do outro. Quando compreendermos que nenhum êxito pode resultar da derrota, exploração, ou menosprezo do outro (qualquer outro), teremos iniciado um caminho de mudança de uma cultura da violência, em que fomos socializados, para uma cultura da paz.
Com esta ideia de domínio convivem a competitividade e a procura do sucesso a qualquer preço. A competitividade, o triunfo e o êxito foram elevados, pela ideologia neoliberal, à categoria de valores sagrados inquestionáveis. Esses valores aparecem, até, na publicidade de centros educativos considerados de qualidade.

Questionar o triunfo e o êxito como valores absolutos não significa menosprezar a necessária autoafirmação dos indivíduos, povos e culturas. Face à uniformização e ao pensamento único, uma educação e uma cultura da paz assentam, necessariamente, no respeito e na valorização da diferença e da diversidade, tanto biológica, como cultural.

Educar para os direitos humanos e a democracia

Educar na e para a paz exige e implica a defesa dos direitos humanos e com eles as regras e os princípios de uma cultura democrática. Na era do neoliberalismo são cada vez mais escassos os espaços para exercer a cidadania; estamos a escorregar perigosamente para um sistema de democracia formal, mediatizada pela televisão e orquestrada pelos grupos económicos. Corremos o risco de deixarmos de ser cidadãos para nos tornarmos meros espectadores ou clientes, em que o viver dá lugar ao consumir e o decidir dá lugar ao delegar.
Para fugir a este piso escorregadio há que reinventar a cultura democrática, no plano social, em geral, mas também no plano educativo: democratizando o conhecimento e o acesso à cultura; favorecendo a participação e o controlo social; e democratizando a economia.
A democracia implica que esteja garantida a possibilidade de participação efetiva de todos. Sem participação não há democracia. A participação é, ao mesmo tempo, um requisito e um valor que deve enformar os sistemas educativos. Em consequência, as escolas deverão fomentar estratégias apoiadas no trabalho colaborativo, na participação e na cooperação.

Só se aprende a viver em democracia respirando uma atmosfera democrática, desde criança, na família, na escola, na igreja.
Só numa organização democrática em que todo o outro tem vez e voz, germinará, naturalmente, uma cultura autêntica de paz e respeito pelos direitos humanos.

Educar na afetividade e na promoção das relações interpessoais

A educação na e para uma cultura de paz começa pela construção de relações de paz entre todos os membros da comunidade educativa, o que exige respeito, reciprocidade, aceitação incondicional do outro, confiança, comunicação empática (pôr-se no lugar do outro) e cooperação.
Para avançar nesta direção é imperioso mudar a cultura dominante da competitividade, por uma cultura de reciprocidade, tolerância e afirmação, através da utilização de metodologias, dinâmicas e estruturas participativas. E, sobretudo, não devemos esquecer, como nos recorda Paulo Freire, que a educação é um ato de amor. A educação dos sentimentos faz parte integrante da educação na e para a paz.

Contributos:
JARES, Xesús R., “Los contenidos básicos de la educación para la paz”, Padres Y Maestros, nº 254, p. 15 – 18
http://www.objectivo2015.org
http://www.objetivosdomilenio.org.br/
http://www.faac.unesp.br/pesquisa/tolerancia/texto_educacao_borin.htm

 




Colocado no dia: 31 Janeiro 2012 às 10:50

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Artigo escrito por: Secundino Correia

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