
A brincadeira infantil, como nós adultos a apelidamos, é um fator fundamental para o desenvolvimento de aptidões físicas e mentais da criança, funcionando como um catalizador para que esta possa descobrir a sua personalidade, aprender a viver em sociedade e preparar-se para as funções que irá assumir um dia mais tarde. Os jogos e brincadeiras infantis não são apenas um mero entretenimento, mas sim atividades que possibilitam a aprendizagem de várias habilidades.
A palavra “jogo” deriva do latim ludus, que significa diversão, brincadeira. O jogo é reconhecido como meio de facultar à criança um ambiente agradável, motivador, planeado e enriquecido, que possibilita a aprendizagem de várias habilidades.
Piaget (epistemólogo suíço, considerado um dos maiores expoentes do estudo do desenvolvimento cognitivo infantil) afirma que a atividade lúdica é o berço obrigatório das atividades intelectuais da criança. Ele chega mesmo a afirmar:
O jogo é, portanto, sob as suas duas formas essenciais de exercício sensório-motor e de simbolismo, uma assimilação do real à atividade própria, fornecendo a esta seu alimento necessário e transformando o real em função das necessidades múltiplas do eu. Por isso, os métodos ativos de educação das crianças exigem todos que se forneça às crianças um material conveniente, a fim de que, jogando, elas cheguem a assimilar as realidades intelectuais que, sem isso, permanecem exteriores à inteligência infantil. (PIAGET, Jean. Psicologia e Pedagogia. Trad. Por Dirceu Accioly Lindoso e Rosa Maria Ribeiro da Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976, p.160).

Outro pesquisador que se interessou pelo jogo infantil, foi Henri Wallon (filósofo, médico, psicólogo, político francês e marxista convicto, tornando-se bem conhecido pelo seu trabalho científico sobre Psicologia do Desenvolvimento, dedicado principalmente à infância). Analisando os estudos de Piaget, Wallon evidenciou o caráter emocional em que os jogos se desenvolvem e a sua relação com a dinâmica da socialização. Referindo-se à faixa etária dos sete anos, Wallon demonstrou o seu interesse pelas relações sociais infantis nos momentos de jogo:
A criança concebe o grupo em função das tarefas que o grupo pode realizar, dos jogos a que pode entregar-se com os seus colegas de grupo, e também das contestações, dos conflitos que podem surgir nos jogos onde existem duas equipes antagónicas. (WALLON, Henri. Psicologia e Educação da criança. Lisboa: Vega/Universidade, 1979, p.210)
O que é então a brincadeira? Podemos propor a seguinte definição: é a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na ação lúdica e na aventura.

Apesar de os jogos e brincadeiras infantis serem fundamentais para o desenvolvimento intelectual e social da criança, não devemos esquecer, de igual modo, quão importante é a conexão entre os mecanismos da aprendizagem e a integridade do sistema nervoso. As crianças que têm algum tipo de problema neurológico ou motor podem necessitar de materiais especialmente criados para as suas necessidades, para servirem de auxílio às atividades pedagógicas que, quer os pais, quer os professores, quer os terapeutas vão desenvolvendo com elas.
Mais importante do que a quantidade de jogos é, sem dúvida, a qualidade dos mesmos e sobretudo a qualidade da relação e da interação que pais e educadores conseguem estabelecer com a criança.
Partes do texto retiradas de “Brincadeiras Infantis: Importância para o Desenvolvimento Neuropsicológico”, de Mônica Oliveira da Silva Vicente Valentim.
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