Mocho XXI: entrevista ao coordenador do projecto

No seguimento da viagem da CNOTINFOR até Abrantes rumo à 2.ª edição do “Rossio-Aqu@line” e ao “4.º Encontro da Comunidade Mocho XXI“, entrevistámos o Dr. António Tomás, Coordenador do projecto, sobre o “Mocho XXI” e a consequente descoberta de novas formas de ensinar e aprender com as novas tecnologias no 1.º ciclo do Ensino Básico.

1. Quando e como surgiu a ideia que deu origem ao Projecto “Mocho XXI”?
O programa Mocho XXI foi lançado por iniciativa do Município de Abrantes, na pessoa do seu presidente – Prof. Nelson de Carvalho – como projecto-piloto no ano lectivo de 2004/2005. A ideia base consistiu na informatização dos ambientes de aprendizagem no Ciclo com o claro objectivo de contribuir para um aumento do rendimento e qualidade das aprendizagens através de recursos de informação e comunicação. A ideia materializou-se na sala de aulas de uma pequena escola de meio rural, com alunos de vários níveis de aprendizagem, e a firme aposta do município neste projecto aliada à extraordinária competência do docente desta turma – Prof. Américo Pereira – fizeram desta primeira experiência um absoluto sucesso que consolidaria a intenção de alargamento às restantes escolas do Concelho.


2. Como vê o papel das TIC na educação e, especialmente, no 1.º ciclo do Ensino Básico?
A estratégia de informatização de ambientes de aprendizagem não visa por si só qualquer imposição de metodologias ou modelos pedagógicos específicos. Pretende-se sim que cada docente adapte e consolide o seu próprio modelo pedagógico no pressuposto de que a integração de recursos informáticos na aprendizagem contribuirão para a criação de estratégias mais diversificadas e estimulantes sem ignorar, no entanto, que a integração destas novas ferramentas de trabalho conduzirão inevitavelmente à criação de novas metodologias de trabalho que têm levado todos os professores do ciclo do Concelho de Abrantes a um esforço suplementar de adaptação e enriquecimento pessoal e profissional: Se por um lado são expectáveis aumentos consideráveis nos níveis de competência técnica para a utilização de sistemas informáticos e Internet que, idealmente, ultrapassam as que são impostas ao cidadão comum, por outro, e num patamar de não menos importância, é essencial o desenvolvimento de uma nova consciência pedagógica que permita adequar processos de treino e aquisição de conteúdos escolares a novos paradigmas da aprendizagem baseados num maior grau de autonomia e constante atitude de jogo, desafio e auto-descoberta. A criação de ambientes facilitadores, onde o sujeito do conhecimento modela constantemente as suas acções e conceitos com base nas suas próprias experiências, levará o professor a abandonar a postura tradicional e assumir um papel de facilitador e coordenador de processos de construção da aprendizagem. É precisamente nessa estratégia de favorecimento que os recursos informáticos assumem um papel fulcral.

3. Na sua perspectiva, como tem sido a adesão a este projecto por parte dos professores, alunos e pais?
O professor que é colocado em exercício numa sala informatizada responde de forma distinta consoante o seu nível pessoal de competência e motivação para o uso das TIC. Se se trata de alguém que já utiliza e tira partido da informática e Internet a integração inicial é facilitada mas, sem uma necessária reflexão e esforço suplementar na pesquisa e criação de aplicações pedagógicas e adaptação de metodologias, cedo se verificará algum desencanto relativamente às anunciadas e pressupostas vantagens da utilização de computadores na sala. Se, ao contrário, se trata de um docente sem experiência e hábitos de utilização da informática a integração dos novos recursos é geralmente adiada por todo o tipo de argumentos possíveis mas, por outro lado, as utilizações dos computadores (inicialmente poucas) são sustentadas por objectivos mais concisos e parece existir mesmo uma maior consciência dos produtos de aprendizagem a alcançar em função de cada momento de utilização, mesmo que essas sessões tendam a ser meticulosamenmte orientadas e sem grande espaço para o trabalho em autonomia. Uns e outros revelam necessidades diferentes de formação, os primeiros no sentido da descoberta de metodologias e processos de controle e pilotagem dos trabalhos realizados com TIC e os segundos no sentido de um maior nível de competência técnica de utilizador, que lhes permitam maior flexibilidade de métodos de aplicação e utilização dos sistemas informáticos em si.
Os alunos, por sua vez, são invariavelmente apontados como “especialistas” a curto prazo: tornam-se utilizadores experientes em tempo recorde, e anseiam por qualquer oportunidade de trabalho em que possam utilizar o computador portátil. Obviamente que também o desenvolvimento das competências dos alunos é directamente proprocional ao tempo e frequência de utilização, e cabe a cada professor gerir da melhor forma os tempos e os objectivos da utilização dos computadores.
Quanto aos pais, é evidente que entendem esta iniciativa como mais uma vantagem educativa, mas também aqui a forma como referem as vantagens e desvantagens destas actividades parece ser influenciada pela sua propria experiencia na relação com as TIC.

4. Quais as dificuldades e obstáculos com que se tem deparado o “Mocho XXI”?
Resumiria as dificuldades a duas tipologias, apenas:
1. A manutenção da fiabilidade das redes internas.
Não tem sido fácil manter em perfeitas condições de funcionamento um tão grande número de salas informatizadas (81 salas do ciclo). Alguma falta de experiência inicial do(as) professor(as) e o desconhecimento dos processos de funcionamento das redes faz depender o trabalho diário de um apoio técnico muito próximo, que nem sempre tem sido possível manter e que a médio prazo, vai aconselhando os professores a procurar outro tipo de recursos, cujo funcionamento dominem melhor;
2. A diversidade dos níveis de competência dos professores.
Como já se referiu, a destreza e a motivação dos docentes para a utilização das TIC pode condicionar (e fá-lo, de facto) a frequência da utilização dos portáteis na sala de aula, embora eles estejam permanentemente disponíveis para todos os alunos…
Para tentar colmatar esta discrepância, foi criado um curso de Formação inicial como contributo para a igualização das competências de base. Por ele passaram já cerca de 90 professores que adquiriram algumas capacidades básicas para a utilização de um conjunto seleccionado de aplicativos de produção multimédia, utilização das redes e produção de aplicações informáticas destinadas à aquisição ou treino de competências ou conteúdos curriculares específicos.

5.Como perspectiva a possibilidade de colaboração entre o Projecto “Mocho XXI” e o Projecto “Escola e-fixe” da CNOTINFOR?
O projecto Escola E-fixe preconiza um tipo de intervenção muito próximo daquele que temos vindo a implementar. A grande mais valia esperada resulta exactamente dessa consonância de métodos, a que se acrescenta um conjunto de software de produção de reconhecida e comprovada qualidade.
Numa primeira fase, esta parceria dará resposta a um pequeno grupo de docentes que revelem mais destreza na utilização da informática na educação, conferindo-lhes um tipo de especialização que responda às suas exigências e necessidades formativas.
Nas fases seguintes estes docentes funcionarão como disseminadores da experiência realizada, nomeadamente através da divulgação dos materiais produzidos, procurando assim motivar progressivamente todos os restantes docentes do concelho para adesão a este projecto.

Agradecemos ao Dr. António Tomás a sua preciosa colaboração nesta edição da BICA. Os votos do maior sucesso para este inovador projecto.




Colocado no dia: 30 Maio 2008 às 0:00

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Artigo escrito por: Eliana Ceia


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