É para nós motivo de grande orgulho poder publicar nesta edição da BICA uma entrevista com o Professor Arsélio Martins, o professor que recebeu o Prémio Nacional do Professor, um galardão atribuído pelo Ministério da Educação pela primeira vez, para distinguir “aqueles que contribuem de forma excepcional para a qualidade do sistema de ensino”. O professor foi considerado pelo júri como “um exemplo de cidadania e um mestre no verdadeiro sentido do termo”.
1. Ao fim de 35 anos de carreira, receber este Prémio constitui um reconhecimento pessoal e profissional, um olhar para trás e sentir que valeu a pena?
Quando a direcção da escola, em que trabalho desde 1982, me disse que tinham pensado em apresentar a minha candidatura ao Prémio, senti que era considerado como um exemplo de professor que tinha cumprido a sua missão e de tal modo que era reconhecido pelos pares e havia a possibilidade de ser reconhecido pela comunidade escolar e educativa e talvez por quem olhasse de fora para as últimas décadas de serviço no sistema educativo. Quando então me perguntaram sobre se aceitaria o prémio, caso apresentassem a candidatura, tive de fazer esse exercício de olhar para a participação que a minha vida foi. E aceitei ser reconhecido como um professor do seu tempo a representar os professores do seu tempo. Valeu a pena?
2. Noutras entrevistas evidenciou a participação cívica de que nunca abdicou. Considera ser essa uma missão do professor?
Um professor é também um cidadão, capaz de exercer os seus direitos de participação, capaz de dar exemplo. Todos os professores que exercem a profissão de professores são activistas cívicos, cada um a seu modo. Uns mais do ponto de vista mais restrito ao espaço escolar, à sua especialidade, outros mais activos na discussão sobre o sistema e as mudanças necessárias ou ao nível da participação política. Cada um deve exercitar os seus deveres de cidadão e tão bem quanto puder o seu magistério de influência no uso dos seus direitos.
3. Na sua opinião, qual o papel que as novas tecnologias têm vindo a exercer nas nossas escolas?
As tecnologias disponíveis são parte e formam o ambiente em que vivemos. Nas escolas, devemos estar sempre e tanto quanto possível a viver a actualidade, mesmo quando temos de ensinar os conceitos eternos. Uma parte da nossa escola de conhecimentos é validada pela tecnologia ou perde sentido para as novas gerações. O ensino deve ser tão consistente com a história como com a actualidade científica e tecnológica. Devemos saber escolher, não podemos esconder ou ignorar. Estúpido será sempre não utilizar de forma inteligente os instrumentos do tempo presente, as tecnologias. Tonto será sempre o que prefere ignorar e esconder.
4. Que conselhos deixaria aos professores que estão hoje a começar a sua carreira?
Conselhos? Estudar, estudar. Utilizar tudo, não desprezar coisa alguma. Trabalhar com pessoas diferentes exige que saibamos que o que funciona com uns não funciona com outros. Não eleger qualquer ferramenta, método ou estratégia capaz para ser a vida toda. Ver e olhar, ouvir e escutar, reconhecer tanto os erros como os acertos. Ser capaz de mudar convencido, nunca como vencido. Saber convencer sem vencer.
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