Autora: Drª Marina Almeida, Psicóloga “Tenho ideias, mas que fazer com elas… partilhar…. pensar alto…. prosear…. como fui inventando meu modo de vida? Parece que o fazer, às vezes é tratado como da ordem do privado. Talvez porque o que se faz traz consigo uma espécie de denúncia da nossa posição no mundo que nunca será igual a do outro, é sempre passível de outra abordagem. É quase um se expor à realidade e correr o risco de frustrar e se decepcionar. Mas isto é o que chamamos de teste de realidade, de ir a cultura, é o que nos faz humanos diferentes e semelhantes, nunca iguais. Só nossa raça humana é igual! Portanto vamos fazer, criar, poetizar, sonhar, compartilhar…”
Quero partir então do pensar sobre o modo de vida humana e a necessidade última de um diagnóstico para tudo, porém nem tudo tem diagnóstico. Modo de vida é uma maneira de ser no mundo, ou seja, configurações de afectos, de tempo, de lugar, das relações, percepções focais e genéricas que podem tomar um sujeito, um grupo, um colectivo dentro das composições que vão se desenhando as relações humanas, podemos chamar de sociedades e comunidades. Hoje em dia para tudo se tem diagnóstico: se meu carro quebra o mecânico diz… “preciso fazer um diagnóstico do seu veiculo, uma checkagem”, vem o canalizador a casa.. vai fazer diagnostico para consertar a torneira porque não sabemos porque não sai a água” e se é com nossa saúde, aí complica? Fiquei perguntando-me qual o valor, necessidade, vontade, expectativas, consequências, desejo de buscar o diagnóstico como uma verdade ou será apenas um caminho?! Para que serve o diagnóstico? De onde veio isto? Da nossa cultura evoluída, mas compartimentada, que separa, categoriza, observa o fenómeno, experiência, qualifica, quantifica e intervêm quando é possível. A isto chamamos de modelo científico ou ciência. Está ligada a nossa capacidade humana de pensar, reflectir, agir e evoluir. Não tem nada de errado nisto, só poderá ser um complicador quando ficamos nesta única posição. Vamos ver o verbete diagnose: conhecimento ou determinação de uma doença; termo da linguagem internacional, discernimento, exame. Vamos então para o verbete diagnóstico: capaz de ser discernível. Portanto definições abertas e fechadas.
O diagnóstico na vida actual desafia os profissionais, de saúde, do quotidiano, em vários níveis epistemológicos, teóricos, técnico, investigativo. Para uma elaboração adequada e sensível, o diagnostico que envolve a vida humana precisa ser deveras cuidadoso, pois entra em jogo a vida deste ser, de indivíduos ou grupos, portanto entendo como uma responsabilidade social. No contacto com o ser humano precisamos desenvolver nossa capacidade de distingui-lo como ser único, mas social, uma acção recíproca e dialéctica do interno e externo, da mente e corpo, considerando o problema, queixa, em seus aspectos multifacetados. Frente a um ser humano complexo, não há uma coisa a ser feita, tratada, diagnosticada, medicada, mas muitas… Nossa tarefa (profissionais) é mudar a maneira de pensar, falar e agir nestes sofrimentos humanos que aparecem nesta realidade que insere a subjectividade humana. Portanto, é pensar de que maneira aquilo que aprendemos com as experiências anteriores possa ser útil, sensível, e eficiente a fim de que possamos intervir no cenário actual. A Psicanálise durante estes cem anos tem contemplado estes estados de sofrimento humano e redimensionou as formas de continência e cuidados. Dizemos em Psicanálise que ela a teoria não está com problemas, seu corpo teórico tem se desenvolvido, que são os analistas que estão com dificuldades de realiza-la na prática do quotidiano. Hoje tenho dúvidas sobre isso. Apesar dos avanços da psicanálise talvez ela precise transgredir ela própria e encontrar novos paradigmas!
Na sociedade pós-moderna, caracterizada pela cultura do narcisismo e pela sociedade do espectáculo, temos “um modelo de subjectividade em que se silenciam as possibilidades de reinvenção do sujeito e do mundo”. Na cultura do narcisismo e na sociedade do espectáculo, a fragmentação da subjectividade leva ao paradoxo entre autocentramento e exterioridade. Trata-se de uma nova forma de subjectivação, por meio da qual são criadas outras modalidades de subjectivação na actualidade, o que constitui o fundamento da actual psicopatologia e portando diagnósticos. Caímos na hegemonia da aparência, parece que ficou curado, que resolveu os problemas, etc… Curar na linguagem psicológica, quer dizer “capacidade de cuidar-se, de ter cuidado”, portanto muito diferente no que entendemos no quotidiano, na medicina!
A única coisa que sabemos é que o homem continua em seu sofrimento, a maneira pela qual aparece sua dor de crescimento ou adoecimento é que precisamos entender neste contexto histórico – chamada de sociedade da informação e do espectáculo-narcisico. O jargão de “Freud explica”, não é mais suficiente para uma sociedade da informação tecnológica e da velocidade. O intersubjectivo que é o social está tendo uma força na subjectividade humana. Vejamos, usarei alguns comentários caricatos e humorísticos para tentarmos uma leveza no pensar sobre estas questões. Hoje queremos o quê? Resultados rápidos, práticos, eficientes, prazerosos e baratos. Estamos na era do fast- food, drive-true, click aqui, transforme-se em, tudo por um e noventa e nove, consuma, não pense, tudo por dinheiro, façam suas apostas, beba o quanto puder, divirta-se, emagreça 10 quilos numa semana, kit com 5 DVDs Sexo da Pesada é só ligar para…, entregue-se ao prazer virtual, cirurgia plástica em 40 pagamentos, fique sarado malhando numa academia de bolso, mande por email seu pedido oraremos para você, junto você ganha um mapa astral demonstrativo! E por aí vai… Falo do imediatismo em pauta: eu quero, eu posso, eu tenho, e de preferência agora. Se não posso estou fora, sou infeliz, fico triste desapontado, com raiva, estou fora dos padrões da sociedade. Nem me percebo que isto é apenas uma exigência de fora e não a minha real, que pode ser diferente, que posso esperar…. Pois se espero me acho a pior das piores criaturas, porque não consegui satisfazer meus desejos na hora e isto parece ser errado. Só parece.
Se formos frustrados em nossas rotinas, vem à raiva, o stress, o ataque cardíaco, as doenças psicossomáticas, as adições, de cigarro, álcool, diversões a toda, pago para sentir medo, visto que o medo e a desgraça humana foram banalizadas, não conseguimos senti-la de maneira afectiva, solidária e fraterna. Se não recebo o bom salário ou não tenho emprego, aí piorou, minha capacidade imaginativa ficou afectada, só sei fazer daquele jeito e portanto fico sem saída e deprimido, geralmente tenho surtos, revolta, espero o salvador aparecer, grudo numa religião, vou ao médico e ele me dá remédios, se tiver coragem acho algum terapeuta legal e aí vai…. Outra coisa ainda nesta linha: como se compõem a imagem corporal, que lugar ocupa na subjectividade, as crianças de hoje têm? Uma memória electrónica, idealizada do corpo perfeito, da manequim, do atleta, que os acompanham durante sua vida. A motricidade é digitalizada pelo vídeo-jogo, computadores, são ágeis, falantes, espertas e inteligentes. Mas quão carentes estas crianças e jovens se encontram: faltam limites, ética, diálogo, afecto, solidariedade, fraternidade, humildade, cuidado com a natureza!
Só o vínculo humano é capaz de humanizar o outro ser humano e preencher estas faltas. E então vem um problema…. Sou o que vejo, sou o que lembro, sou o que não lembro, sou o que tem registro, sou o que ouço… Onde estará minha identidade de EU? Está é a questão chave? Filosófica por que não? Desde que o mundo é mundo nos fazemos esta pergunta. Quem sou eu ? Para onde vou ? De onde vim? Ser ou não ser ? Estamos no ter ou não ter? Se tenho o diagnóstico vem uma espécie de alívio e medo? Diagnóstico é apenas uma possibilidade, não é a resposta, é apenas caminho. Não é partida ou chegada. Nunca acharemos as verdades quaisquer que sejam fora de nós. O amor à verdade deverá vir sempre em primeiro lugar, ela será o caminho. Saber que as respostas estarão sempre em nós mesmos, é a maior dor e ferida do homem, pois descobre que nada sabe?! Não conseguiremos penetrar no nosso mundo em si, mas percebemos as riquezas das relações entre os fenómenos, descobrimos que o importante não é a estrutura e sim o processo! Eis o novo paradigma! Sua impotência, frente ao desconhecido, o torna potente para ser eterno aprendiz. Quando conseguirmos perceber que a realidade não é para ser controlada é para ser vivida, sonharemos com a realidade e transformaremos nossos sonhos em realidade! Esta poderá ser nossa arte de viver! Consulte o Artigo Completo. Autor: Marina S. Rodrigues Almeida, Psicóloga, Psicopedagoga e Pedagoga, Consultora em Educação Inclusiva, Instituto Inclusão Brasil;
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